Galegos de Londres. Notas

Depois da catástrofe do navio Prestige nas costas galegas, constituiu-se o Grupo Galegos de Londres

Segunda, 19 Abril 2010 07:25

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Carlos Durão

Carlos Durão - Tentarei sintetizar algo da atividade cultural e política dos que talvez poderíamos denominar “galegos de Londres” (com algum excurso ao continente), nos derradeiros decénios, e sempre do meu ponto de vista e lembranças, necessariamente limitados.

É sabido que a emissora de rádio britânica BBC tivera um programa galego (assim chamado: Galician Programme) nos anos 40 e 50 do século passado, nomeadamente entre 1947 (14 de abril!) e 1956, dentro do programa espanhol, que era dirigido por George Hills, filho de espanhola (havia também os correspondentes programas em catalão e em euskara); quem se encarregava do programa galego era Alexandro Raimúndez (sob o pseudónimo de Xavier Fernández); Plácido R. Castro foi ali o colaborador principal, mas também, desde a Galiza, F. Fernández del Riego e, com menos participação nos programas, Augusto Assía, R. Carvalho Calero, Celso E. Ferreiro, Ramón Piñeiro, Manuel Maria, Ben-Cho-Shey, Ánxel Fole, R. Otero Pedraio, R. Vilar Ponte, F. López Cuevillas, F. Bouza-Brey, X.Ma e Emilio Álvarez Blázquez, L. Carré Alvarellos, Rafael Dieste, Álvaro Cunqueiro e outros.

O conteúdo daqueles programas “regionais” era mormente cultural, mas a sua projeção política era clara: eram os anos em que existia o governo no exílio, presidido por José Giral (no que estava Castelão), e em que a ONU decretara o isolamento do regime de Franco, com a retirada dos embaixadores, etapa que só remata quando o "Estado Español" (que assim se auto-denominava) ingressa na ONU, apoiado pelo voto americano, Estados do N e do S (muitos destes regimes autoritários).

Não foram essas as únicas emissões galegas no estrangeiro naquela época: em Buenos Aires tinha então Luís Seoane um programa de rádio (Galicia emigrante) e, de Nova Iorque, chegava a voz galega de E. Guerra da Cal (na Voice of America).

Também eu trabalhei nesse departamento da BBC, mas nos anos 60 (chamava-se então Spanish and Portuguese Section), quando já não estavam ali os galegos Alexandro Raimúndez e Plácido Castro, mas sim Ramón Lugrís e Fernando Pérez-Barreiro; entre os colaboradores da Galiza estava na altura V. Paz Andrade; por parte portuguesa colaborava António de Figueiredo. (Outro exilado galego [de nascimento] que colaborava nas emissões em espanhol era Salvador de Madariaga, que fora ministro e diplomata da República.)

Como mostras da atividade cultural e política galega daqueles anos assinalarei o Centro Galego de Londres, o Grupo de Trabalho Galego e as colaborações mais ou menos formais dalguns de nós com “o interior” e com agrupações do resto do Estado Espanhol, que estavam muito ativas na emigração e o exílio europeus e americanos, naquela etapa anterior à denominada “transición”.

Existia, p.ex., um Centro Ibérico (também denominado Centre Ibèric/Erditoki Iberikoaren). Ali travamos relação muitos oponentes dos regimes franquista e salazarista com outros exilados: anarquistas espanhóis da CNT (p.ex. José García Pradas, derradeiro redator-chefe do diário CNT); catalães, exilados já desde a ditadura de Primo de Rivera (p.ex. Jordi Vilanova, que estava a negociar o retorno de Tarradellas); antifascistas portugueses (p.ex. o mencionado António de Figueiredo, que fora secretário de Humberto Delgado: ele lembrava que galegos e portugueses colaboraram no sequestro do navio português Santa Maria por Galvão); os portugueses tinham também o seu Centro, que se chamava Liga Portuguesa do Ensino, onde nós, os galegos, éramos sempre bem-vindos.

Representando ARDE (“Acción Republicana Democrática Española”) lembro que estava Luis Portillo Pérez, que foi o derradeiro cônsul da República no Reino Unido (e pai do ex ministro conservador inglês Michael Portillo); entre os catalães, além do mencionado Vilanova, acho que também estava Carles Busquet, com quem coincidíamos igualmente nas chamadas Cenas de la República a cada 14 de abril (ele estivera nos serviços secretos da Generalitat, e passara a colaborar com os correspondentes serviços britânicos na 2a guerra mundial: dava-nos informação sobre a participação de antifascistas galegos em operações inglesas, como o desembarco em Narvik, ou soviéticas, como do general galego Líster, ou dos galegos que lutaram na Divisão Leclerc, que libertou Paris, ou os que foram ter ao campo de concentração de Mauthausen; também do Consello de Galiza, com o que posteriormente tivemos contatos). Com outro exilado espanhol, Rafael M. Nadal (amigo de Lorca, como Guerra da Cal), tive eu na altura contatos político-culturais.

Era a época das grandes manifestações, contra a guerra do Vietname; a favor de Bernadette Devlin (p. ex. em relação com o Bloody Sunday na Irlanda do Norte); o maio do 68 (mormente francês); as ocupações de casas vazias; a grande manifestação do 73 contra a visita de Marcelo Caetano (meio milhão de pessoas), momento álgido da luta antifascista portuguesa, na que havia uma forte presença de galegos, com bandeiras de estrelas, e onde se confundia “o português” e “o galego” nos cartazes.

Mais adiante os centros da emigração agruparam-se na FAEERU (“Federación de Asociaciones de Emigrantes Españoles en el Reino Unido”). Proliferavam então as plataformas e “plata-juntas”, e veio também por aqui o “camarada” Santiago Carrillo, que era tão ignorante das questões galegas que chegou a pronunciar “Castelado” (porque pensava que “Castelão” era uma corrução espanhola dessa suposta forma!).  Também o Marcelino Camacho deu aqui o seu mítim, e travou relação conosco.

Anos depois, o jornalista galego (e colaborador do Centro Galego) Emilio López Méndez dirigia Cuenta Atrás (“revista de cultura y temas de emigración”), onde tinha cabida algum texto galego (como também na revista Emigrante, igualmente bilingue, da que eu fui co-fundador). Outro contato era o basco exilado Alberto Elosegi (que assinava os seus escritos como "Paul de Garat"): era irmão daquele rapaz, Joseba Elosegi, que se lançara envolto em chamas diante de Franco no frontão de Anoeta em 1970.

Ao mencionado Grupo de Trabalho Galego de Londres pertenciam a escritora Ma Teresa Barro, o tradutor e escritor Fernando Pérez-Barreiro Nolla, o ceramista Xavier Toubes, o pintor e professor Manuel Fernández-Gasalla, e eu próprio.  Publicava um Boletim quasi-bimestral, que enviava aos mestres rurais para se familiarizarem com a primeira Lei do Ensino, de 1970, pela possibilidade que abria de ensinar galego na escola.  A sua seção de correspondência estava aberta fundamentalmente aos mestres, mas também a qualquer vulto interessado nestas questões, como foi o caso do escritor galego Ben-Cho-Shey, o prof. brasileiro/português Agostinho da Silva ou o prof. português M. Rodrigues Lapa, que enviavam contributos.  O Boletim incluía um suplemento com material escolar imediatamente utilizável.  Nos suplementos dos nos. 7 e 8 (fevereiro e abril do 72), o Boletim levava textos portugueses, com algumas instruções para facilitar a sua leitura.  No no. 9 (Natal) fazia-se um primeiro intento de adaptar textos de Castelão à ortografia comum.  Os componentes do GTGL publicaram um Plano Pedagógico Galego.

Andando o tempo, aquela agrupação cindiu-se amistosamente num novo GTGL (3a etapa, na que não estava eu, mas nele entrara o jornalista Ricardo Palmás Casal), e mais um Seminário de Estudos Galegos de Londres (no que sim estava eu), em colaboração com a Comissão Cultural do Centro Galego de Londres e o Greater London Council (que custeava as despesas do local). Na primeira etapa, foi útil a colaboração dos italianos de Lotta Continua na impressão do Boletim.

O CGL celebrava o Dia das Letras Galegas, o Dia da Pátria Galega (daquela Dia de Galicia), romarias, juntanças, bailes; embora não fosse precisamente a favor de eventos culturais/políticos (a sua Diretiva preferia convidar o então embaixador, Fraga Iribarne), ali conseguimos levar em diferentes épocas conferenciantes como X.A. Montero, J.L. Fontenla R., Santiago Álvarez, I.A. Estraviz, Camilo Nogueira, David Mackenzie. Fora Presidente durante anos Manuel Díaz, do PCG. Publicou alguma revista (Galicia en Londres) e mais uma edição inglesa de A Virxe do Cristal, de Curros, dirigida por Bieito Batán. Na Comissão Cultural do Centro Galego de Londres desenvolvi eu trabalhos ao longo dos anos, não sempre fáceis, e traduzi para galego os Estatutos do Centro, que antes estavam em espanhol.

Mantinha eu também contatos com Amnesty International, à que apresentei um relatório (no 70) a respeito da situação da língua na Galiza, e sobre a prisão de X.L. Méndez Ferrín, por ter ele escrito um romance sobre a guerrilha galega. AI enviou um advogado à Galiza para assessorar no caso. E ainda li eu uma nota sobre Ferrín pelos microfones da BBC.

Quanto ao Consello de Galiza, tivemos um breve contato com a sua delegação em Paris (Xavier Alvajar, das Irmandades Galegas, que mandaram alguma documentação, as Atas da Constituição, textos de Castelão, etc., e deram-nos um contato em Londres), mas era já a época da “transición”, e o centro de gravidade da política de oposição retornou ao “interior”; antes, como bem indicara Castelão, procurávamos seguir o seu conselho aos antifascistas galegos exilados: que não devia haver partidos políticos no exílio, porque não havia então possibilidade de eleições. Ainda tivéramos outros contatos, estes culturais, com o Consello da Cultura Galega, do Centro Galego de Buenos Aires.

Em deslocamentos à Suíça tive contatos com companheiros da Sociedade A Nosa Galiza, de Genebra (M. Suárez López; também com o cantante exilado Xerardo Moscoso, e com Xosé García). Posteriormente fui, para palestras de tema reintegracionista, à Bélgica, à Holanda (Universidade de Groninga, em colaboração com Domingos Prieto e o Lar Galego de Roterdão), e à Alemanha (Universidade Ludwig Maximilian, em colaboração com Carlos Oliveira e a Penha Galega de Munique).

Em certa altura desenvolveu atividades diversas uma denominada “célula de simpatizantes” da UPG em Londres, entre eles A. González Bouzas, X. Matalobos, J. Carvalho (militante) e eu: facilitava logística, publicações, e alguns fundos; posteriormente aquele apoio transferiu-se ao BNG, com César Varela (militante); e Ana Miranda vinha desde Bruxelas (quando era secretária do eurodeputado Camilo Nogueira) para nos informar. Igualmente tivemos juntanças, informais, com Manuel Beiras e Camilo Nogueira. Mas nunca deixamos de atender corretamente alguns representantes da Xunta de Galicia, ainda tendo políticas diametralmente opostas a respeito da língua (e não só). Outro tanto com representantes da Casa de España e do Colegio Español em Londres.

Nos anos 70 a TGWU (Transport & General Workers Union) tinha uma seção que sindicava os trabalhadores estrangeiros da hostelaria, entre eles os galegos e os portugueses; eles não precisavam do inglês para se comunicarem entre si; uma das consequências lógicas, para alguns de nós, era que falavam a mesma língua; mas isto era anátema para certo nacionalismo galego.

[Talvez não seja este o lugar mais apropriado para tratar este assunto pelo miúdo, mas cumpre deixar constância, porque é pertinente para a história daqueles anos e porque pode explicar alguns erros de perspetiva: muitas diferenças com alguns diretivos das formações políticas galegas “de esquerda” tiveram a sua origem na conceção da nossa língua: galego-espanhola por um lado, ou galego-portuguesa por outro; também na crítica, quando havia que fazê-la, à União Soviética: a questão do "moldávio", entre outras, era inevitável para mim, movendo-me no mundo das línguas nos organismos internacionais. “Desviacionismo burguês”, “enfermidade infantil do nacionalismo”, “imperialismo linguístico”, “irredentismo”, eram algumas das acusações lançadas na altura contra os reintegracionistas por certo nacionalismo galego, dando-se o feito curioso de os diretivos de certo partido fazerem uma “tradución” (sic) dalgum dos primeiros documentos reintegracionistas (já no 1977!) a eles enviados. O “lério da ortografia” (exatamente como para R. Piñeiro!) era espantalho escandaloso para eles: não de fiar, até subversivo.  E estava, ainda, a questão de fundo da “nación” (digamos o “nación-alismo”), da obviedade de a nossa nacionalidade ser incompleta, pelo sul e pelo leste: não Galicia mas Galiza, etc. , o que era ainda mais heterodoxo. Não se faziam questão da norma "galega" deliberadamente ligada ao espanhol, tratando-se de criar um novo "idioma" totalmente independente do português (uma espécie de crioulo) submetido e confinado dentro das fronteiras do Estado Espanhol (a este respeito, os partidos catalães iam com anos-luz de dianteira, e inteligência, na consideração da unidade da língua comum aos países catalães). Tinham também essas pessoas certa ingenuidade a respeito da complexidade incontornável da vida real: no fundo era a incapacidade de ver além duma retórica “proletária” e uma prática machista.]

Em fim, fui co-fundador, acionista e correspondente em Londres do primeiro semanário ANT (o A Nosa Terra reiniciado no 1977, cuja marca fora registada em Madri por J.L. Fontenla R.); ajudei I. Padim Cortegoso com a sua tese sobre a emigração, quando ele estava na cadeia; e fui co-fundador das Irmandades da Fala e encarregado da sua delegação em Londres (também sócio da AGAL desde o começo).

Depois da catástrofe do navio Prestige nas costas galegas, constituiu-se o Grupo Galegos de Londres (utilizando conscientemente o título dum romance meu), que desenvolveu atividades arredor das movimentações anti-poluição, manifestando-se diante do edifício da Organização Marítima Internacional para protestar pela inoperância das suas medidas contra a contaminação e pela cumplicidade e hipocrisia das autoridades espanholas, e lendo uma proclama da plataforma Nunca Mais (com César Varela e Rafa Porro, do CGL), que depois entregamos no local da OMI; teve também intervenções no Foro Social Europeu.

Também facilitei logística para a organização ecologista ADEGA, e organizei nos anos 80 as protestas contra os vertimentos de resíduos radiativos ingleses na Fossa Atlântica (na minha casa pararam Bautista Álvarez e Modesto Solla, a pedido de Francisco Rodríguez); noutra ocasião veio um autocarro cheio de ecologistas galegos (com Carlos Vales), que não cabiam na minha casa e tiveram que acampar no jardim: a alguns deles tive eu que tirá-los depois da cadeia, com a intervenção do cônsul espanhol. (Na minha casa hospedaram-se também, em épocas diferentes, R. Piñeiro, Á. Cunqueiro, J.L. Fontenla e Ma do Carmo Henríquez Salido.)

Nos anos 90 coube-me a grande honra de ligar aqui com Ernesto Guerra da Cal para atividades luso-reintegracionistas, entre elas a participação galega nas negociações dos Acordos Ortográficos, que ele conseguiu para nós utilizando os seus contatos luso-brasileiros. A minha relação com ele, já anterior, foi assídua quando ele morou em Londres; seria prolixo narrar aqui a vasta panorâmica dos temas tratados no nosso relacionamento; citarei só a referência ao seu tio-avô Inocêncio (que “foi assassinado pelos franquistas em Vigo”), e ao livro que ele estava a preparar sobre aspetos inéditos dos “Seis poemas galegos” do seu amigo Lorca (desde a madrilena Residencia de Estudiantes), quando o surpreendeu a morte; mencionarei ainda que a sua biblioteca (vastíssima em temas queirosianos e da cultura galego-portuguesa em geral) foi afinal doada à Hispanic Society of New York, por desídia das instituições “oficiais” galegas (algo similar aconteceu com a administração do Arquivo Sonoro da Galiza, a quem eu infrutuosamente propusera que gravassem a voz daquele galego universal.)

Num simpósio na Universidade de Londres coincidi com os já conhecidos Carlos Casares, Xavier Carro e Salvador García-Bodaño, como, independentemente, com Celso Emilio Ferreiro, Augusto Assía e o correspondente da Agência EFE Ramón L. Acuña S. E num simpósio na Universidade de Oxford conheci o artífice principal do “galego de seu”, Constantino García (quem não gostou nadinha de ser abertamente contradito numa universidade na que ele não tinha valimento nenhum.)

Embora não entrem estritamente nesta categoria de “galegos de Londres”, quero lembrar aqui Paco del Riego (dentro da minha relação com as pessoas da editora Galáxia e a revista Grial), como também X.L. Franco Grande (para cujo Diccionario galego-castelán enviei material lexicográfico), e finalmente os irmãos Facal, Pepe Devesa e algum outro do velho Grupo Brais Pinto, dos meus tempos de Madri.

Carlos Durão

Londres

14 de março de 2010