Ramom Pinheiro: do seu epistólário com reintegracionistas (I)

No número 95-96 da revista Agália recolhe-se a transcriçom de um rico conjunto de cartas que Ramom Pinheiro dirigiu a alguns reintegracionistas

Sexta, 15 Maio 2009 20:00

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Carta de Ramom Pinheiro a Carlos Durão em 1985

PGL - Oferecemos hoje duas das 24 que enviou a Carlos Durão, a segunda delas (que foi a derradeira) acompanhada do facsímile, e ambas precedidas da apresentaçom com que o próprio Carlos Durão introduz o conjunto das 24.

 

Ramom Pinheiro na lembrança

Carlos Durão

Conheci Ramón Piñeiro [1] em Madrid, com ocasião duma conferência sua durante o curso académico 1964/65, no Centro Galego, se não lembro mal. Embora ele se encontrasse algo incómodo em situações coletivas, tinha um genuíno interesse em conhecer a “gente nova” e as suas ideias, sobretudo em relação com a cultura galega em geral. Como eu já conhecia a revista Grial e mais algumas publicações da editora Galáxia, foi natural que me dirigira a ele com propostas culturais e literárias juvenis, iniciando assim uma correspondência que duraria até à sua morte em 1990.

Continuei escrevendo-lhe desde Londres (para onde me desloquei em 1965) já com suficiente confiança (e talvez atrevimento) para lhe comunicar as minhas dúvidas a respeito do “galeguismo” e dos “galeguistas” naquela altura, que ele pacientemente atendia nas suas cartas. Eis um exemplo do teor das suas cartas por aqueles anos: “As consideracións que fás na tua carta son moi atinadas e moi interesantes pola sua radical sinceridade” [2]. Por outras palavras: chamava-lhe a atenção todo o que fosse “radical”, ainda que não o entendesse, em cujo caso tratava-o com certa generalidade e até reticência. Não entendia as revoltas estudantis dos anos 60, e não gostava das situações multitudinárias, mas procurava informar-se sobre elas, sempre interessado, e desde certa distância.

Ele informava-me desde a sua perspetiva santiaguesa (“O ambiente vaise animando pouco a pouco. Claro que no veciño Portugal está moito mais animado” [3]). E eu procurava informá-lo, desde a minha perspetiva londrina, não só do panorama literário, filosófico e cultural em geral, mas também de questões da emigração galega e da soliedariedade antifascista galego-portuguesa. Acontecia às vezes que o conteúdo duma carta minha para ele acabava sendo um artigo publicado em Grial, enquanto o dalguma outra não era, segundo ele, “publicable”. Em todo o caso, para ele essas eram questões que atribuía ao meu “corazón xeneroso e azos entusiastas”.

Mas cedo tocamos um tema fulcral, que Piñeiro chamava o “lerio da ortografía” [4], assunto que repetidamente tratamos na nossa correspondência, até eu notar que lhe causava certa contrariedade, e que andando o tempo provocou um enfriamento nas nossas relações (as quais, no entanto, permaneceram sempre cordiais por ambas as partes).


Como ele tinha ao respeito informação de primeira mão, comunicava-ma não só a mim mas também ao nosso Grupo de Trabalho Galego de Londres [5]: a primeira Lei do Ensino, as “Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego”, os manuais Gallego 1/2/3, as atividades da Real Academia Gallega, do Instituto de la Lengua Gallega, etc. Sobre este escrevia-me: “Sin dúbida que iste Instituto será o órgano oficial do Ministerio para o relativo á lingua galega” [6], e era justamente isto o que nos preocupava aos componentes do GTG, que na altura tínhamos preparado um livrinho de leituras para nenos, o qual não viu a luz por essas questões de “control pedagóxico” e “control idiomático” que mencionava Piñeiro [7]. O tempo confirmaria que aquelas prevenções do GTG sobre o ILG eram bem atinadas.

Foi a sua resposta  –”polémica”, em palavras dele–  a Rodrigues Lapa [8] a que me fez entender definitivamente que o indeciso achegamento de Galáxia ao mundo lusófono aquando da publicação dos poemários Lua de Além-Mar e Rio de Sonho e Tempo de Guerra da Cal [9] e das Cantigas d’escarnho e de maldizer dos cancioneiros medievais galego-portugueses de Lapa [10] se tornara em rejeitamento frontal e definitivo.

Ainda uma vez que lhe sugeri, telefonicamente, a publicação em Galáxia dum texto meu “reintegrado”, a sua resposta foi que essas cousas eram “para publicar em Lisboa”. Segundo Guerra da Cal [11], Piñeiro tinha a certeza de que a censura espanhola não deixaria passar uma declaração de “lusismo” tão radical. E segundo Lapa [12], tratava-se duma “atitude suicida” frente ao problema da língua e da cultura.

Nas visitas minhas à casa de Piñeiro em Compostela, em tempo de férias, coincidi alguma vez com Carlos Casares, J. M. Beiras, Anxo Tarrío, Salvador García-Bodaño, A. Torres Queiruga, Isidoro Millán, e mais os velhos conhecidos Xavier Carro e Antón Santamariña. Creio lembrar também a Gerald Denley e Enrique Santamarina. A Xaime Isla e Paco del Riego [13], que conhecera em Vigo, também os via com ele em Lourido (“Praia América”), na casa de Paco, como também a Carvalho Calero, pelos anos 70. Igualmente conheci J. M. López Nogueira e Á. Cunqueiro através dele. E também a E. Blanco Amor, numa conferência de Piñeiro em Vigo.

Em Londres também esteve ele uma vez, na minha casa, com a sua esposa Isabel. O nosso relacionamento completa-se com algumas postais dele, e telefonemas meus nos derradeiros anos, quando esmorecera a relação epistolar.

Foi ele quem me ofereceu as páginas da revista Grial e repetidamente me animou a escrever, não só artigos e ensaios para ela (o que fiz durante bastantes anos), mas também obra de criação em geral (alguma publicada pela editora Galáxia) [14].

Ao meu ver, R. Piñeiro cumpriu uma importante função continuadora duma parte do “galeguismo” histórico nos denominados “anos escuros”  [15] do após-guerra, positiva ao princípio no que tinha de animador de atividades culturais galegas, mas questionável anos depois, quando o seu agudo instinto político não o alertou do perigo daquele submetimento ao controle ministerial espanhol [16].

 

Compostela, 21-IV-70

    Querido Carlos:

    Recibín, hai tempo, a tua carta e máis o breve traballo relatando as pescudas e viravoltas que tiveches que dar á percura do Centro Galego. Sairá no GRIAL [17].

    Mándoche esta publicación da Academia [18], primeiro paso para chegar á unificación normativa da nosa língua, agora máis urxente que nunca pra que poida servir de instrumento docente nas escolas.

    Nistes dias están discutindo nas Cortes a nova Lei do Ensino. Na discusión do artigo 1° refugaron unha enmenda na que se pedía unha decraración espresa do reconocemento dos dereitos das línguas vernáculas. Na discusión dos artigos 14 e 17, en troques, incorporáronse os puntos de vista da língua materna no ensino preescolar (dos 4 aos 6 anos) e tamén no ensino básico (dos 6 aos 14 anos). Por primeira vez na historia, a nosa língua deberá ser instrumento docente. Moito tivo que agardar, leve o demo! Agora imos ver o que pasa.

    Dende logo, unha das primeiriñas cousas que temos que facer é preparar material escolar galego de distintos grados. Si che se ocurre algunha suxerencia interesante, non deixes de nola comunicar. Non sei si os ingleses teñen cousas moi boas que se cadra se poderían traducir e adaptar ao nivel e ambiente dos nenos galegos, inda que quizáis resulten ambientes moi diferentes. En fín [sic], si che se ocurre algunha suxerencia que nos poida ser de proveito non deixes de ma comunicar. Chegóu a hora de nos ocupáremos dos nosos nenos.

    Unha forte aperta do teu amigo

            Ramón


Compostela, 8-III-89 [19]

Benquerido Carlos:

    Graciñas polas tuas palabras portadoras dunha sincera mensaxe de fraternidade cristiana ben confortadora nestes trances en que un sentimento de soedade profunda se apodera do ánimo. A mensaxe sinceramente cordial dos amigos é a que dá alento para sobreporse e reanudar a vida normal, que é o que procuro facer coa esperanza de que o vacío tan omnipresente nestes momentos se convirta co tempo en presencia ideal na memoria.

    Apertas fraternas para ti e todolos teus de

            Ramón Piñeiro

 

 

 

NOTAS a rodapé:

[1] Seguirei em diante a grafia que ele empregava para o seu nome.

[2] Carta de 31-V-69.

[3] Carta de 15-III-75.

[4] Carta de 26-IX-69.

[5] Fundado em 1970, que publicava um Boletim quasi-bimestral para os mestres rurais se familiarizarem com a primeira “Ley General de Educación y Financiamiento de la Reforma Educativa” (Ley 14/1970, de 4 agosto, BOE, núm. 187). Os outros componentes do Grupo eram Teresa Barro, Xavier Toubes, Manuel Fernández-Gasalla e Fernando Pérez-Barreiro Nolla.

[6] Carta de 9-VI-71.

[7] Ibid.: “eses libros deberán estar autorizados polo Ministerio de Educación  –esto é, polo ICE–”.

[8] A “Carta a don Manuel Rodrigues Lapa”, Grial, no 42, 1973, pp. 389-402, resposta ao artigo de Lapa “A recuperação literária do galego”, publicado na revista Colóquio/Letras, Lisboa, no 13, 1973, pp. 5-14 e reproduzido em Grial, no 41, 1973, pp. 278-287. Ambos os artigos concernem-me também a mim, porque ambos me mencionam, porque ambos foram escritos por pessoas amigas, e porque esse tema fulcral confirmou as profundas diferenças com Piñeiro que afinal resultaram ser insalváveis.

[9] 1959 e 1963.

[10] 1965.

[11] Com quem tive assídua relação quando ele veio morar em Londres.

[12] Com quem também tive relação epistolar por aqueles anos.

[13] A relação com “Paco” (Francisco Fernández) del Riego, naturalmente também devida a Piñeiro, passou a ser mais concreta quando, como gerente de Galáxia, em certa altura me encarregou das relações públicas e vendas da editora na Inglaterra (por exemplo na celebração do Dia das Letras Galegas), enlaces, notas bibliográficas para Grial, etc., e também me fazia algum encargo para amigos, por exemplo livros, alojamento, etc. Igualmente me comunicava novas da situação cultural galega.

[14] Assim A teima, Galáxia, 1973, que naturalmente foi submetida à censura em Madrid (publicada sem o derradeiro capítulo e com diversas “correções” ortográficas).

[15] Por X.L. Franco Grande.

[16] Vide nota 7. Ou sim o alertou mas ele não soube, ou não quis, furtar-se a ele.

[17] Núm. 28 (1970), pp. 235-6: "O Centro Galego de Londres".

[18] Devem ser as primeiras “Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego”.

[19] Esta é a derradeira carta que conservo de Piñeiro, resposta à minha de pêsame pela morte da sua esposa Isabel. A minha derradeira carta a ele é do 30-V-90, que já não foi respondida, pois suponho que estava bastante mal. Depois do seu falecimento, em 27 de agosto do 90, recebi uma notinha da sua irmã Sara, do 10 de setembro, agradecendo o meu pêsame a ela.