Rio Homem, resenha de Eliseo Fernández
O romance de André Gago relata a peripécia do galeguista Rogelio Pardo, de Porto d'Ozom, refugiado em Portugal depois de combater o fascismo na Galiza e em Asturias
Quinta, 17 Março 2011 00:00
Eliseo Fernández, documentalista, historiador e militante libertário
Eliseo Fernández - O que é Rio Homem? É aquele caudal de água que nascendo na serra do Gerês, veio assolagar a aldeia de Vilarinho da Furna em 1971, quando o Estado português resolveu construir uma barragem para aproveitamento eléctrico.
Nessa altura, aquela pequena aldeia de Terras do Bouro era uma das poucas povoações que ainda conservavam um exemplar regime de vida comunitária, que tinha sido estudada pelo etnólogo Jorge Dias na sua obra "Vilarinho da Furna, uma aldeia comunitária". Naquele livro, o Dias referia a passagem por Vilarinho da Furna de algumas pessoas refugiadas da Galiza após o golpe militar e, se calhar, é nesse dato onde está a origem do romance "Rio Homem" de André Gago, que relata a peripécia do galeguista Rogelio Pardo, de Porto d'Ozom, refugiado em Portugal depois de combater o fascismo na Galiza e em Asturias.
O romancista lisboeta de origem transmontana constrói um ambicioso relato em que mistura nacos da história da Galiza e Portugal, abrangendo episódios da repressão franquista, os primeiros fugidos, a minaria do volfrâmio, ou a memória do comunitarismo agro-pastoril de Vilarinho da Furna e seu doloroso desfecho. A presença no romance daqueles feitos e também de personagens históricas como o guerrilheiro "Gafas", o poeta Miguel Torga e o próprio Jorge Dias, contribui a fazer ainda mais crível o conjunto do relato. O carácter arraiano do romance não provem unicamente de a acção transcorrer dos dois lados da fronteira, mas também do percurso por toda aquela história comum a Galiza e Portugal.
No romance de André Gago a vida do perseguido político e da milenária sociedade comunitária arrostam o tempo histórico dos fascismos ibéricos e do desenvolvimentismo; o relato de sua derrota é também a eterna história da luta pela vida, o amor e a justiça.

Eliseo Fernández (Ferrol, 1967)
Documentalista, historiador e militante libertário. Desenvolve suas atividades na investigação da história do movimento operário e do anarquismo na Galiza, assim como no movimento associativo da recuperação da memória histórica. Tem publicados diversos trabalhos, entre os quais “O anarquismo na Galiza: apuntes para uma enciclopedia” ou “O movemento libertario en Galiza (1936-1976)” (em parceria com Dionísio Pereira).
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