Os galegos no Brasil: a tese de doutoramento do professor Corbacho Quintela

A investigação resgata casos particulares da ação cultural galega no Brasil

Sábado, 10 Outubro 2009 00:00

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O romance Os Dois foi escrito por Álvaro de las Casas durante a sua estadia brasileira

PGL - No passado dia 30 de setembro celebrou-se no Paraninfo ou salão de cerimónias da Universidade de Santiago de Compostela o ato de defesa pública da tese de doutoramento de Antom Corbacho Quintela, que versa sobre "A aculturação dos galegos do Brasil: o vazio galeguista".

O novo doutor é natural de Vigo, estudou Filologia Galego-Portuguesa na Universidade de Santiago, e reside desde há anos no Brasil, onde atualmente é professor na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia.

Na tese trata-se de documentar e analisar as atitudes e atividades de índole cultural dos galegos que ao longo dos séculos XIX e XX se estabeleceram como emigrantes no Brasil, o grande país irmão de língua. Já em 1863 Rosalia Castro incluía no seu livro poético Cantares galegos (Vigo 1863) uma quadra popular que delata como notável naquela altura o fenómeno da emigração galega ao Brasil (e, naturalmente, também portuguesa; de resto, a quadra também se documenta por esses anos em Portugal):

Se o mar tivera varandas,

fora-te ver ao Brasil;

mas o mar não tem varandas:

amor meu, por onde hei de ir?

O autor descobre na sua investigação que, em contraste com o que aconteceu com os emigrados galegos estabelecidos em outros países americanos (nomeadamente em Cuba, na Argentina e no Uruguai, mas também, em menor medida, em Venezuela, México, Estados Unidos, Porto Rico ou Chile), que desenvolveram já desde fins do século XIX muitas iniciativas de afirmação cultural galega, os emigrados galegos no Brasil não organizaram uma ação cultural comparável à realizada nesses outros países.

A tese estuda pormenorizadamente as causas deste fenómeno: isto é, por que motivos se assentaram no Brasil poucos intelectuais galegos e não abundara a produção cultural nem surgira um sistema literário galego no Brasil. E vai desvendando como, para além dos factores ligados às condiçoes sócio-económicas dos próprios emigrantes (escassa formação cultural, precariedade económica e laboral, etc., condições que se aplicam em grande medida também aos emigrantes galegos nos outros países), foram determinantes no caso do Brasil as condições sócio-políticas do país, especialmente nos tempos em que a política cultural e imigratória do Brasil esteve dominada pela ideologia nacionalista do "Estado Novo" e do presidente Getúlio Vargas (anos 30 e 40 do século XX); a este respeito o autor fala da brusca inflexão que as administrações de Getúlio Vargas provocaram no fenômeno imigratório no Brasil, abandonando a anterior política brasileira de atração de imigrantes europeus.

Como casos particulares dentro do conjunto dos galegos estabelecidos no Brasil, Corbacho detém-se demoradamente nas estadias brasileiras de vários galegos que, sem serem propriamente imigrantes e alguns tampouco propriamente exilados, publicaram livros surgidos das suas experiências no grande país irmão.

Assim, Manuel Bernárdez (um filho de imigrantes galegos no Uruguai deslocado ao Brasil como jornalista; nascido em Vilagarcia de Arousa em 1868 e falecido em 1942) publicou em 1909, em Buenos Aires o livro El Brasil: su vida, su trabajo, su futuro.

José Casais Santaló (um asilado reconvertido em turista) é autor dos livros de viagens Un turista en el Brasil, Rio de Janeiro 1940, Congonhas do Campo, 1942, e Roteiro Balneário, 1942.

José Maria Garcia Rodríguez, diplomata e escritor (nascido em 1912, e falecido em San Juan, de Porto Rico, em 2006), poetizou em galego as suas vivências brasileiras no livro intitulado Brasil: historia, xente e samba-canción, editado em 1977 pela Editorial Galaxia, de Vigo, e compilou as suas impressões sobre o Brasil no livro Intitula-se Brasil, 1950-1960: crónicas y recuerdos, publicado em San Juan em 2001. Do primeiro livro são estes versos:

Brasil de cravo e canela,

milagreiro és tu pra mim:

samba-canção, cangaceiros,

e o bon Jesus do Bonfim.

Vou-me ajoelhar na tua terra

pra rezar por ti e por mim.

O jornalista e literato José Luis Casas (sobrinho de Álvaro de las Casas, de quem falaremos a seguir) morou e trabalhou alguns anos no Brasil, dessa estadia surgiu um romance de ambientação brasileira, em castelhano, intitulado Sucedió en Brasil, publicado em Madrid em 1985.

Entre todas essas figuras, merece salientar-se a do bem conhecido escritor e galeguista Álvaro de las Casas (professor, historiador, dramaturgo, poeta, conferencista, político...), que quando fugiu da Galiza no início da guerra civil em 1936, parou algum tempo no Brasil, depois de passar uns meses em Portugal, e antes de estabelecer-se na Argentina (onde morou até pouco antes da sua morte em 1950). Corbacho ocupa-se longamente desse período brasileiro, pouco conhecido até agora na Galiza, da biografia dessa estranha e cativante (por vezes também inquietante) personagem que foi Álvaro de las Casas.

A sua estadia brasileira forneceu ao prolífico Álvaro de las Casas matéria para vários livros, que publicou nesses anos; entre eles: Espanha (gênese de uma revolução) (Rio de Janeiro 1937), sobre as causas da guerra civil que estava em curso; Angústia das nossas horas (Rio de Janeiro 1937), relexões de doutrina político-social; o romance Os dois (Rio de Janeiro 1938, 171 pp.); e o livro de viagens Na labareda dos trópicos (Rio de Janeiro 1939).

Devemos chamar a atenção para o romance Os dois. Corbacho adverte que "No Prólogo, o autor informa que ele se limitou a reproduzir os manuscritos de duas cadernetas amarradas com barbante, sem nome, data ou endereço, que encontrara sobre uma poltrona, junto a umas luvas e uma bengala, durante uma viagem de trem da Corunha a Ourense", e que se trata "de um diário não assinado".

A tese, uma extensa investigação de grande alento, realizada num longo esforço de pesquisa em procura de dados quase sempre dispersos e difíceis de localizar, o que lhe confere extraordinário mérito, recebeu a máxima qualificação do júri, constituído por uma professora e um professor do Brasil e por três professores galegos: Luísa Tucci Carneiro, da Univ. de São Paulo; Manuel de Souza e Silva, da Univ. Federal de Goiás; José Luís Rodríguez, presidente do júri, da Univ. de Santiago; Xosé Manuel Núñez Seixas, secretário do júri, também da Univ. de Santiago; e José-Martinho Montero Santalha, da Univ. de Vigo.

Orientador da tese foi o professor Elias Torres Feijó, da Universidade de Santiago, no ambiente de atividades do grupo GALABRA, que tantos frutos leva já produzido.

Ouvir entrevista ao doutor Corbacho Quintela

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Diario Cultural da Rádio Galega | 01 de outubro de 2009