Rosa Virgínia Mattos Silva: "Língua não é um conceito lingüístico, mas político”

A professora é autora de várias obras, entre elas, “O Português Arcaico -  Fonologia, Morfologia e Sintaxe” (Editora Contexto).

Sábado, 07 Novembro 2009 00:00

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José Carlos da Silva – O Espaço Brasil entrevistou, via e-mail, a Professora Doutora Rosa Virgínia Mattos Oliveira e Silva, uma das mais influentes lingüistas brasileiras, especializada em Português arcaico e titular de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia.

PGL - A Universidade Federal da Bahia oferece curso de literatura galega ou mantém convênio com universidades da Galiza?

RVMS - A UFBA tem um centro de estudo da língua galega (CELGA).


PGL – Em especial para as novas gerações, qual é a importância do estudo do Português arcaico e como este pode contribuir para o entendimento e evolução da Língua?

RVMS  - Aqui as novíssimas gerações se interessam e muito pelo português arcaico.


PGL – Em sua opinião, o Acordo Ortográfico atingirá seu objetivo de normatizar a Língua Portuguesa em todos os países lusófonos?

RVMS  - Ortografia não é língua, portanto não se pode normatizar a Língua Portuguesa nos países lusofónos.

 


PGL – Em seu trabalho “Três Sócio-Histórias: três línguas”, apresentado na mesa redonda “Aspectos históricos do galego-português” no VII Congresso Internacional de estudos galegos (set/2006), a senhora distingue o Português de Portugal, do Brasil e da Galiza como três línguas diferentes entre si. Por favor, explique-nos esta colocação.

RVMS - Estou nisso com Chomsky, "língua não é um conceito linguístico, mas político". Se há um território definido e um estado há uma língua. Com a autonomia da Galiza, pós-franquista, a Galiza autônoma, tem a sua língua.


PGL – Não poderíamos fazer um paralelo desta situação linguística com o inglês falado na Inglaterra, nos EUA e na África do Sul?

RVMS  - Não conheço tal situação.


PGL – O Professor Ricardo Carvalho Calero (1910-1990) afirma em seu livro “Da fala e da Escrita” que: “As modernas afirmaçons dalguns filólogos portugueses, segunda as quais, rota a unidade política, o Português sofreu um processo de desgaleguizaçom, nom podem ser entendidas senom no sentido de que traços dialectais do Centro e do Sul (de Portugal) se converterom em normativos, porque o poder de decisóm política se estabeleceu em Lisboa”. A senhora concorda com esta afirmação?

RVMS  - Não conheço esse livro de Carvalho Calero, contudo concordo com a afirmação acima.

 



PGL – O autonomismo do galego, distanciado do Português, não seria o decreto de morte da língua, ao seguir em uma perspectiva castelhanista?

RVMS  - Ao meu ver, dependendo dos galegos, o autonomismo não seria a morte do galego, pelo contrário!


PGL – O Minho é também uma fronteira linguística?

RVMS  - O Minho é uma fronteira, principalmente, política.



Conheça a entrevistada

Rosa Virgínia Mattos e Silva, Doutora em Lingüística pela Universidade de São Paulo (1971), com Pós-Doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (1981), é Professora Titular de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, pesquisadora I-A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), docente fundador do Programa Pós-Graduação em Letras e Lingüística da UFBA e Coordenadora do Grupo de Pesquisa Programa para a História da Língua Portuguesa – PROHPOR, de que foi criadora, em 1991. É membro fundador do Projeto Nacional Para a História do Português Brasileiro – PHPB (1997) e integra grande parte de instituições científicas nacionais e estrangeiras, colaborando ainda com vários Conselhos Editoriais de periódicos indexados.

O seu exemplo de excelência acadêmico-científica – sempre em prol do desenvolvimento dos estudos relativos à história da língua portuguesa, desde seus primórdios, no período arcaico, até à constituição do português brasileiro – estimulou a Universidade Federal da Bahia (UFBA), em parceria com a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), a promover o ROSAE - I Congresso Internacional de Lingüística Histórica, em sua homenagem(26 a 29 de julho de 2009), em Salvador, que contou com a participação de alguns dos maiores especialistas nessa área do conhecimento humano.