Dublin was burning (too)
Quinta, 18 Agosto 2011 00:00
Por Edelmiro Momám
The wind howls through the empty blocks looking for a home
I run through the empty stone because
I'm all alone London's Burning (The Clash, 1977)
Estamos a começos de 2006 e o Rialtas na hÉireann, o governo da Irlanda, autoriza uma organização unionista norte-irlandesa a se manifestar em Dublin o sábado 25 de Fevereiro desse mesmo ano. Ia ser a primeira vez desde 1937 que os orangistas desfilassem pelas ruas da capital da República da Irlanda. Ia ser, diziam, uma homenagem às vítimas do conflito norte-irlandês. Às vítimas dum lado só.
Mas, por que Dublin? Por que naquela altura? Era claro que organizar aquele desfile em Dublin não fazia sentido nenhum, era claro que muitos irlandeses haviam considerar essa marcha como uma provocação e era claro que ia haver problemas. Mas provavelmente isso era precisamente o que se pretendia. Com as eleições para a câmara da Irlanda do Norte e as eleições gerais na República agendadas para Março e Maio de 2007, respetivamente, e com um Sinn Féin em alça nas sondagens, havia que tomar medidas. Havia que importar um bocadinho da violência do Norte para aquecer os gélidos ecrãs do mundo inteiro com uns fotogramas de violência que, a nível interno, servissem como vacina recordativa da velha associação de ideias propagandista que faz de republicanismo sinónimo de violência.
O Sinn Féin não mordeu a isca. Anunciou que não apoiaria e mesmo que condenaria quaisquer protestos contrários ao desfile e instou os seus afiliados e simpatizantes a ficarem na casa. Para os de Gearóid Mac Ádhaimh (aka Gerry Adams) parecia claro que a polícia e os meios andariam à caça do republicano com cartão de afiliado para assim poder "demonstrar" o envolvimento do Sinn Féin com a violência, para subsequentemente mostrar o dedo acusador contra Mac Ádhaimh perante a opinião pública ¿Acaso no lo ven? ¡Hablan de paz pero nosotros sabemos de buena tinta que son violentos de cuidado!, diriam. Mas, desta volta, o sentido comum e a disciplina partidária foram escrupulosamente respeitados e não houve partidários do Sinn Féin cachados in flagrante.
Porém, como já se sabe que a esquerda é prolixa em cisões, certos grupos minoritários dentro do republicanismo sim que convocaram uma contra-manifestação com o objetivo declarado de cortar a passagem dos unionistas em Sráid Uí Chonaill. Se a memória não me atraiçoa, juntaram-se ao pé da estátua de Parnell. Eram entre vinte e quarenta pessoas. Face a eles havia por volta dos douscentos polícias armados de escudos, mocas, espingardas de balas de borracha, veículos blindados e demais parafernália. Entre as duas fações uns quatrocentos metros de terra de ninguém. Zoar de helicópteros. Como ninguém se movia, imagino que o assessor de turno decidiu atiçar os cães, por aquilo de dar carniça para tanta piranha como ali se juntara munida até a borda de aparelhos fotográficos, câmaras de vídeos e micros. Um grupo de polícias que duplicava bem o número dos jovens republicanos começou a avançar. Vendo o que lhes vinha acima, os rapazolos decidiram recuar cara o pedestal da escultura, onde foram acurralados, literalmente, pola polícia. Ai estiveram mais ou menos um quarto de hora ou vinte minutos com a polícia a acossâ-los insistentemente com os escudos, esperando em vão a milagre previsível da reação violenta, destinada ao consumo de ávidos flashes, que já estava a tardar um bocadinho demais.
Foi nesse momento quando os oficiais mais avisados, que permaneceram prudentemente na retaguarda, foram subitamente golpeados (figuradamente, no seu caso) pola consciência nítida de que a violência coletiva não fazia falta importâ-la do norte, que já a tinham na casa. Sim, esses nenos e adolescentes, filhos dum tigre celta alcoolizado e em desemprego crónico. Esses que deambulam em manadas aos sábados contra a tardinha polos arredores de Sráid Uí Chonaill fazendo tudo quanto mal podem e pedindo aos assustados turistas maiores de idade que lhes comprem umas cervejinhas no Spar. Esses mesmos que permaneceram até daquela à espreita na boca das ruas tributárias passaram, em coletivo movimento swarmiano, à ação, o qual, neste caso em concreto, vem a significar que deram em lançar objetos contra os sofridos lombos da vanguarda policial.
Houve então uns angustiosos minutos nos quais os valentes legionários de preto não sabiam se atender os republicanos ou os lumpenizados, se ficar ou recuar, should I stay or should I go, uns angustiosos minutos nos que pareceu que as ordens não chegavam. Mas, por fim, a inteligência militar resolveu abrir um corredor entre a gentalha para facilitar o retorno dos companheiros amurados entre uma anseiada violência política que não dava chegado e uma violência estrutural que vinha, esta sim, de se desestruturar em estouridos parabólicos concretos e contundentes.
Os republicanos, pola sua banda, aproveitaram a retirada do inimigo para sentar no chão em atitude ghandiana, ou, bom, digamos que um quase nadinha mais nervosa, mas há que lhes reconhecer que algum houve que aguentou ali estoicamente durante um tempo considerável a ver cair muito perto, demasiado, os diversos projéteis de borracha e gases lacrimogéneos que iam chovendo a ritmo descontínuo mas perseverante.
Foi então que se revelou a verdadeira natureza diabólica dos telemóveis. E foi tal porque cinco minutos mais tarde todas as linha de transporte público que entravam na cidade iam ateigadas com uma outra legião, não fardada em preto, mas também uniformizada em fato de treino regulamentário com as cores verde e branca do Glasgow Celtic (conhece-se que as do Manchester United não tocavam desta vez). A estratégia policial foi a de tentar impedir as novas hordas púberes de chegarem em auxílio dos seus camaradas de classe (sim, sou consciente de que este termo aqui fica-me muito démodé, mas é o que há) em Sráid Uí Chonaill, aonde, dito seja de passagem, nunca deu chegado a comitiva nortenha. O corolário foi vitrinas rotas, pilhagem e veículos ardendo espargidos por torda a fair city where girls are so pretty (ou dirty old town, segundo as versões), para além dumas quantas dezenas de pessoas que remataram este serão festivo, quer no hospital, quer na delegacia, quer em ambos.
Pouco importa. Porque tanto os média como o establishment político já tinham o que queriam. Por que? Porque, atenção ao mantra, passe-se o que se passar, sempre, la culpa la tiene el Sinn Féin.
E eu, claro, lendo, vendo e escutando a que estiveram a montar estes dias as vítimas do thatcherismo no Reino Unido, não pude evitar ter uma lembrança para as vítimas do tigre celta. Essa legião quase-muda que se manifesta, com elegante discrição, apenas nas estatísticas do desemprego, do acoolismo e outras toxicomanias, do fracasso escolar e da pequena delinquência.
Mas cumpre notar, chegados a este ponto, que há uma pequena diferença entre a Irlanda e os outros países (como a França, a Alemanha, ou, agora, o Reino Unido) onde costumam abrolhar em esporádicas mas cada vez mais frequentes catarses estes episódios de violência urbana. Nesses países, particularmente na França, o grosso dos guetos urbanos, e portanto a coluna vertebral das revoltas, está constituído por imigrantes e os seus descendentes (como nos EUA está, ou estava, por pretos e hispanos). Em contrate, na Irlanda, na população guetificada predominam largamente os irlandeses de souche. Será esta a Europa que vem?
NOTA: Para conhecer uma outra versão dos factos veja-se a Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/2006_Dublin_riots).


























