Mais Perto do Céu

Colectânea de catorze contos autoria da minhota Maria do Céu Nogueira

Terça, 21 Julho 2009 00:00

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Imagem da capa e contra-capa de 'Mais Perto do Céu'

Cláudio Lima (*) - Maria do Céu Nogueira de há muito que trabalha e divulga o conto, numa acção a todos os títulos louvável e meritória. Fá-lo como autora — e genuína — registando a sua bibliografia alguns títulos de inegável e reconhecida qualidade, quer em nome individual, quer em co-autoria com outros exímios cultores da arte de contar.

Mas fá-lo também como divulgadora do género (ou subgénero, por vezes injustamente considerado o parente pobre do romance), levando-o a escolas, bibliotecas públicas, centros culturais, etc. —, onde a sua empolgada e empolgante deriva pelos enredos que deslaça consegue prender a atenção de jovens e adultos. A ela se deve, através da bem conhecida rubrica "hora do conto" uma profícua e persistente acção pedagógica, incutindo sobretudo nos mais novos o amor à leitura como meio prioritário e insubstituível na formação da nossa personalidade e bagagem cultural.

Hoje e aqui é como autora que a apreciamos, para falar um pouco e desalinhadamente a respeito do seu mais recente livro — Mais Perto do Céu, saído no início do corrente ano pela editora AGAL – Associaçom Galega da Língua, sediada em Ourense, numa colecção que engloba nomes prestigiados da literatura contemporânea daquele território irmão, tais como Manuel Maria, Ernesto Guerra da Cal, José Alberto Corral, Carlos Quiroga, etc.

Será pouco dizer que nestes catorze contos, de tamanho desigual na sua construção, mas convergentes na sua mundividência, vamos deparar com cenários revisitados de um Minho arcaico que a memória dos mais velhos teima em reter, num antagónico e difuso sentimento de rejeição e saudade. Rejeição daquilo que de mais ingrato, injusto, espinhoso e sem perspectivas o antigo regime impunha à generalidade da nossa população rural; saudade dos valores que então se enraìzavam nas comunidades, apanágio de quantos comungavam as mesmas desventuras, se solidarizavam na reivindicação dos mínimos e fundamentais direitos, se organizavam para arrostar uma sobrevivência estóica, um pão magro, difícil e incerto.

Será pouco acrescentar que há nestes contos muito de biográfico e de retentivo. Maria do Céu Nogueira nasceu e viveu a sua juventude em estreito contacto com a realidade rural de meados do século passado, — uma realidade marcada pela miséria, a ignorância e a repressão. Conheceu de perto este punhado de homens e mulheres a quem tudo foi negado ou subtraído, menos o estatuto de honradez e tenacidade. Oriunda de uma família de razoáveis domínios agrícolas, seguramente nunca sentiu na pele nem no estômago as agressões daqueles tempos.

Mas a sua sensibilidade precoce para a realidade circundante cedo a convocou a observar o sofrimento represo que latejava por muitos daqueles eidos e eiras, veigas e prados, bouças e lameiros, onde labutavam gerações sucessivas de caseiros e jornaleiros, lenhadores e criados de servir, numa lide de sol a sol e dia após dia, só interrompida no dia do Senhor para repousar o corpo e retemperar a alma.

Chama-se S. Martinho de Escariz a sua aldeia natal, mas poderia chamar-se S. Martinho da Gandra ou S. Martinho do Campo; era a realidade pura e dura daqueles tempos e destes lugares, destes S. Martinhos onde a beleza estuante dos campos entremeada pelo verde-escuro dos pinheirais como que favorecia a ilusão de prosperidade e bem estar, logo dissipada pela magreza e sujidade das crianças, a modéstia das habitações, a ausência das mais elementares infra-estruturas de higiene, de conforto e de progresso.

Dessa constatação, dessa convivência estreita e continuada, retirou Maria do Céu Nogueira os seus personagens e os seus enredos, trabalhando-os com o talento da escritora, mas também com a sensibilidade e simplicidade que uns e outros aconselham. Sabemos que não é fácil ser-se simples em literatura. Há sempre a insidiosa tentação de rebuscar um termo ou expressão, de adornar uma frase, de enredar o texto numa malha de imagens e subtilezas que só complicam a sua compreensão e o tornam menos aliciante ao gosto.

Maria do Céu Nogueira não foi (não vai…) por aí; não empola a linguagem quando a linguagem sã e castiça se impõe na sua sintaxe e fonética características da região; não encena situações de complexa interpretação e pomposa espectacularidade. A sua experiência de professora, que proficuamente exerceu durante muitos anos, dotou-a de especiais recursos de empatia e comunicação, que tanto funcionam no contacto directo com crianças e adultos, como se projectam reflexivamente nos personagens que cria. É de notar, a propósito, que amiúde ela interrompe o fluxo narrativo para se dirigir directamente ao hipotético leitor, interpelando-o ou esclarecendo-o à boa maneira da novela camiliana.

Se os enredos são simples, minimalistas e lineares, alguns não indo além de duas ou três páginas, nem por isso deixam de nos apresentar quadros rústicos de grande vigor, fidelidade e colorido local, a par de uma forte componente simbólica, quando não moralizante. Basta-lhe uma pequena frase para descrever uma cena ou uma paisagem, ou para caracterizar um ou uma personagem. Quem conhece a topografia onde estes contos se inscrevem, identifica-os e identifica-se com eles imediata e naturalmente; quem os ler desprovido de qualquer prévio suporte cognitivo, acaba, por sua vez, por atingir níveis muito aproximativos de compreensão, tal a legibilidade e verosimilhança que a Autora lhes confere.

Será fastidioso e desaconselhável esmiuçar aqui, uma a uma, as peças que compõem o livro. Ao crítico deve competir a função de obrigar a ler e descodificar uma obra; nunca a de o fazer em substituição do leitor, do seu comodismo ou preguiça mental. Por isso, apenas afloramos alguns deles e em tópicos ligeiros. A começar pelo primeiro Vida e Morte de Julião Gervásio, o Sem-Pressas —, que dá o mote e a chave para a compreensão do título – Mais Perto do Céu.

Julião Gervásio é um trangalhadanças, mas bom trabalhador e poupado. Um parente cede-lhe terreno de monte para construir a sua casa, mas "não tem pressas". Vive a ritmo lento, como todos os habitantes do terrunho. Quando a mulher (conseguiu companheira ao abrigo do ditado popular que diz que Deus, quando faz uma panela, faz um testo…) lhe sugere a construção na borda do terreno, junto ao caminho, ele idealiza-a lá em cima "encarrapitada no monte", mais perto do céu. Julião é um filósofo socrático e um poeta adiado.

Não tem livros, provavelmente nem sabe ler. A vida cumpre os seus trâmites, Julião tem filhos e netos, enviuva, não força os pêndulos do destino. Vive nirvanicamente os dias que Deus quer. E no regresso de uma ida à feira de Ponte, fica-se beatificamente ao relento, junto à sua casa, "no lugar mais lindo da freguesia" — a coroa do monte.

"Agora sabe-me bem esta fresquinha e este sossego, aqui, com o Céu por tecto e o mundo a meus pés." — explica ao filho que lhe vem aconselhar o recolhimento. Ali ficou e ali adormeceu para sempre, embalado pela visão da falecida companheira transformada em estrela. De madrugada o filho foi encontrá-lo "encostado para trás, mas com um braço estendido como que querendo agarrar algo" (…) "estava quentinho e o sorriso era nítido à luz da lua." (…) "O pai já não estava ali"(pág. 26).

Anote-se que também na criação ou recuperação de apodos, vulgo alcunhas, Maria do Céu Nogueira é exímia; consegue que adiram aos personagens como segunda pele ou, mais precisamente, como elementos constitutivos de suas figuras e feitios. Também nesse particular se aproxima dos grandes mestres da nossa literatura regionalista, que nos deixaram figuras típicas como O Malhadinhas (Aquilino), O Mata–Leões (Tomás de Figueiredo) ou O Alma Grande (Torga).

Mas prossigamos. Passando por sobre vários episódios bem delineados, onde podemos admirar a luta tenaz pela subsistência em famílias numerosas e de parcos recursos, bem como a solidão e o desânimo que afectam os mais idosos, detenhamo-nos em A Menina que Cristo Acolheu. (pg. 37) Um conto cheio de actualidade, denunciando um caso de pedofilia. Para alertar que o crime hediondo não é de hoje nem exclusivo da perversidade urbana. Bininha, de alegre e comunicativa passa a bisonha e esquiva, constituindo um enigma para a vizinhança e para a professora, que lhe augurava um futuro promissor. Só a morte — uma morte em moldura mística, nos degraus do altar-mor onde furtivamente se insinuara — permitiu deslindar o porquê. A autópsia revelou que a menina fora continuadamente abusada sexualmente pelo padrasto…

Seguem-se as peripécias com o funeral do Fome Negra, com visões telepáticas e vozes do além, com a boa coabitação entre cristão e mouro nos tempos da conquista, com o fracassado noivado entre o lapuz ingénuo e a prima vivida, com o conflito de gerações protagonizado pelo pároco velho e o pároco novo, etc., até atingirmos o último conto e sobre ele nos debruçarmos um pouco.

Nele explora a Autora uma situação tragicómica a partir da existência de muitas Quinhas (diminuitivo familiar de Maria) em determinada aldeia: Quinhas que eram conhecidas pelas respectivas profissões: sardinheira, moleira, parteira, tremoceira, cesteira, tecedeira, costureira e… feiticeira. Quinhas para todos os gostos e serventias. Mas também muito dadas ao cochicho e à bisbilhotice, à mórbida e temerária devassa da vida alheia. Todas, a determinada altura, unidas e de antenas apontadas à casa do jovem casal que veio morar para o sossego daquelas bandas. Nas ausências do marido imaginam uma tórrida relação adúltera entre a dona e o pobre do Josué biscateiro. Só lendo para verificar a embrulhada que aquilo deu e as consequências para a resolver, com tantas Quinhas em cena… Talvez o conto que, pelo tema e o desenvolvimento, se posiciona mais longe do céu

No verso da capa pode ler-se esta nota sintéctica: "A prolífica e delicada escritora Maria do Céu Nogueira vem de dar a lume uma nova obra. (…) O Universo minhoto desta escritora está cheio de ternura e com este livro vão desfrutar os leitores de todas as idades, de quince a noventa anos". Oxalá ele consiga a divulgação e consagração que merece, aquém mas também além Minho, onde nossos irmãos galegos comungam os mesmos ideais de língua e cultura, de pátria e fraternidade.


(*) Texto lido pelo professor Cláudio Limia durante a apresentação do livro Mais Perto do Céu (AGAL Editora, 2009), na livraria Centéssima Página (Braga), acontecida a princípios deste mês de Julho.

 

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